segunda-feira

Reflexão

Será Possível?

Será possível amar e odiar ao mesmo tempo? Será possível ser crente no Senhor Jesus e não amar? Será possível maldizer e amaldiçoar aqueles que amamos? Será possível caluniar e difamar sem mentir? Será possível fazer tudo isso e ir para o Céu?

Tantas vezes um homem disse mal do seu vizinho e lhe chamou ladrão, que o vizinho acabou por ser preso. Tempos depois, descobriu-se que o vizinho estava inocente. Após tanta humilhação e sofrimento, o rapaz foi solto e processou o caluniador.

Defendeu-se este em tribunal, dizendo ao juiz que se limitou a fazer comentários sem maldade ou segundas intenções. Ao que o juiz respondeu: “Escreva numa folha de papel o que disse do seu vizinho. A seguir, rasgue a folha em pedaços e espalhe-os pelo caminho no seu regresso a casa. Volte amanhã para ouvir a sentença”.

Obedecendo às ordens do juiz, o homem voltou no dia seguinte ao tribunal para ouvir o veredicto: “Fez o que eu disse? Pois bem, antes de ouvir a sentença, vá de volta pelo caminho e tente apanhar todos os pedaços de papel que ontem espalhou.”

“Não posso fazer isso, Senhor Dr. Juiz!” Respondeu o homem. “O vento deve tê-los espalhado tanto, que já não sei onde estão. É impossível recuperá-los”.

Ao que o juiz retorquiu: “do mesmo modo, é agora impossível reparar as consequências do mal feito. Um simples comentário negativo, uma simples crítica destrutiva e mal-intencionada, um mero acto de maledicência, calúnia ou difamação de tal modo se espalha que jamais será possível apagar os seus efeitos, resolver os agravos causados e libertar a pessoa da vergonha e da agonia sofrida, podendo mesmo vir a destruir-lhe a própria honra.” E acrescentou: “Se não se pode falar bem de uma pessoa, é melhor não dizer nada!

Sejamos senhores da nossa língua para não sermos escravos das nossas palavras. Nunca se esqueça: Quem ama não vê defeitos; quem odeia não vê qualidades; e quem é amigo vê as duas coisas, mas honra acima de tudo a amizade.”

Ao serviço do mal, “A língua é como um fogo; é um mundo de maldade. Sendo uma pequena parte do nosso corpo, ela pode contaminar a pessoa inteira e pode queimar a vida toda com o seu fogo infernal” (Tiago 3:6).

sábado

Filósofo: Um Midas com o Toque da Razão

Conta-se uma lenda, entre os gregos antigos, de um rei, chamado Midas, que agradou por seus gestos de caridade o deus Baco. Midas havia acolhido e cuidado de Sileno, que segundo os poetas, foi mestre e pai de criação desta divindade. Baco, por meio de Sileno, concedeu-lhe realizar um desejo de sua escolha, qualquer um que fosse. Midas não hesitou e logo pediu que lhe fosse concedido o poder de transformar em ouro tudo o que ele tocasse com a mão. Mesmo reconhecendo a tolice do pedido, Sileno atendeu-lhe.

Midas tocou um ramo de árvore e este transformou-se em ouro. Ficou feliz e entusiasmado, voltando-se para o palácio, tocou as portas e estas também se tornaram em ouro. E assim, ele foi transformando tudo o que tocava. E gostou muito disto. Porém, sentiu fome e ao pegar um pedaço de carne, o mesmo também, tornou-se ouro, o mesmo aconteceu com o vinho e a taça que ele segurava. Infeliz, teve que voltar atrás e pedir para que o poder lhe fosse tirado, pois caso contrário ele iria morrer de fome.

Midas, Midas! De uma alegria extrema para uma situação infeliz! Eis o que acontece também com o Filósofo, que eu diria ser um tipo de Rei Midas, que em vez de transformar em ouro as coisas que toca, transforma em essências tudo aquilo que pensa. Eis o toque da razão, o toque que transforma a existência em essência, que transforma o subjetivo em objetivo, o todo em dualidade de sujeito e objeto.

Há coisas que pensadas em suas essências trazem grandes benefícios, como acontece por exemplo no pensar abstrato da matemática. Porém, quando se procura transformar em essências aquilo que só faz sentido na existência, o filósofo morre de inanição de experiência. Na vida do homem as coisas da existência vem antes das essências e por isto não se pode querer racionalizá-las. O prazer de comer um pedaço de carne, o prazer de experimentar uma sensação no corpo, o prazer do beijo, o prazer de ouvir uma música, e tantas outras coisas, só podem ser vividas e compreendidas na existência. Se o Filósofo as toca com a razão, elas se transformam em algo diferente e perdem seus efeitos, assim como Midas fazia ao tocar um alimento, que transformado em ouro, não poderia mais, satisfazê-lo.

Ah, a imagem do Filósofo é a imagem de um homem feliz que conseguiu o poder de transformar em essência tudo o que tocava com a razão. Porém, descobriu que transformar todos os mitos e as experiências da vida em explicações racionais não lhe pode fazer feliz. Eis a condição da existência humana, não há como sobreviver sendo apenas filósofo.